Palavras polidas

A gente precisa aprender a respirar

Ilustração por @x230894x

(Ilustração de @x230894x)

Eu fiz muitos anos de ballet, mais especificamente dos 3 aos 16. Nesse tempo aprendi muito além de passos de dança, eu aprendi sobre responsabilidade e dedicação. “Não posso tenho ensaio” era a frase que meus amigos mais devem ter ouvido de mim. Já deixei de sair no sábado ou voltei das festas mais cedo porque domingo de manhã tinha que ensaiar. Ou já estudei pra prova final na coxia do Teatro Municipal. Tudo isso porque eu gostava daquilo, então não era como se eu renunciasse da minha vida em prol de algo ruim, na realidade era um esforço que resultava no prazer. Mesmo assim chegou uma hora que foi necessário renunciar. Saí no último ano do ballet, no ano em que me formaria. Decidi que era melhor focar em passar no vestibular. Passei direto. Com 17 anos e meio estava indo morar sozinha 700 km longe de casa.

Ok. Entrei no curso que eu queria tanto, sem que meus pais precisassem pagar cursinho. Ufa! Parecia que todos meus problemas tinham sido resolvidos aí. Mal sabia eu que a faculdade iria me fazer renunciar de várias coisas. E não é porque eu sou nerd, 60 pra mim é 100 sim. São textos pra ler todos os dias, seminário pra amanhã, fichamento pra semana que vem, prova no dia seguinte do feriado, não vai dar pra ir pra casa. E se a gente não tá fazendo o que “tem que fazer”, seja estudar ou ir no ato fora temer porque não dormiu a noite inteira, a gente se sente mal. A gente se sente mal porque se o outro dá conta, por que a gente não dá?

Eu não sou o outro, eu não sou você. Há uma cobrança de um modo geral que a faculdade tem e que nós perpetuamos. O CRA tem que estar maior que o da minha colega porque a gente está disputando vaga no estágio, vou frequentar esse simpósio porque vai ganhar certificado, vou organizar esse evento do curso porque ganha horas extras. Assina a lista e sai da sala. Não volta mais pra aula depois do intervalo.

É justo viver desse jeito? É justo reprimir nossas necessidades individuais pra cumprir o papel de estudante-aplicado-engajado? Não adianta cobrar de mim além do que eu posso dar, porque isso dói. Se hoje eu tenho coisas a fazer, mas não me sentir bem eu vou me dar o direito de assistir um filme ou tirar um cochilo. Vou visitar minha amiga, vou fazer um bolo. As pessoas pensam, sentem, agem de modos diferentes e tudo bem! Eu preciso aprender a respeitar o que é preciso para me sentir melhor nesse mundo da correria, da produtividade, das aparências, da reputação. A gente precisa aprender a respirar.

pirataria

Ah, que bom seria
se nosso âmago acertasse em ser o que se é
sem auto-afirmar, apenas transbordar

o que sou e o que penso
não importa a ninguém mais
só quando faço ou não faço é que confirmo
meus anseios e desejos
o que reprovo e o que sigo
mais um detalhe do que sinto e faço sentir
aos outros um pouco de mim

Fluido e fácil como fumaça
num instante trago ao redor o que me atrai
inspiro o que acho graça
e expiro o que me transborda

#1 rimas no caderno

Além do que se vê, há o que se pensa,

E veja que maravilha é a incerteza.

Construo-me a cada momento

Em que o outro me complementa.

 

Prossigo o meu caminho,

Às vezes acerto o passo, às vezes passo em falso,

Depois de certo tempo aprendi que o erro é válido.

The end(ing)

Ao adormecer eu sabia o que estava por vir,
aquela noite era O Adeus, era O Fim.
Não diga que sente muito,
porque sabemos que não é verdade.

A vida te fez ainda mais insensível e eu menos cuidadosa.
Você me pegou distraída, confesso,
nem percebi que aos poucos me fez teu nada.

Confesso, admito e não luto contra,
Foi bom até perceber que não seríamos muito além disso.
Ou éramos além disso?
Quer saber? Desisto!
Não me aborreça, nem insista!

Tudo bem… fique com os discos e eu com os livros,
A mancha na cama e o rasgo do cobertor é tudo que resta.
Celebremos novamente o estorvo de nós.

Gente

Eu gosto de gente.

Gente de verdade, que olha nos olhos e fala na cara,

fala de tudo, da novela, do tempo ou de nada…

Gente que levanta cedo,

E vive na correria, mas nem por isso deixa de passar alegria

em qualquer coisa que faça.

Gente que dá bom dia,

e que nunca sente frio porque o próprio calor aquece.

Eu gosto de gente,

porque não tem nada mais bonito que gente,

gente de verdade,

gente que sua, sofre, mas também sorri e sente.

Antigozo

“Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma

Tão distraidamente.” – Ana Cristina Cesar

Ocasionalmente observo,

disfarço e sigo o passo

pois em um lugar perdido está

o que deixamos de falar, sentir e escrever.

Durante a construção

demolimos.

Efêmero foi o que talvez não tivesse o que ser,

ficamos apenas no – Prazer.

Não somente no silêncio se esconde a sinceridade

te dou minha palavra, ou até algumas mais

o tempo leva o passado e transa novos nós.

Sem desamarros, rompeu-se com descaso,

para mim o sossego que trago

e você o pó.

Manifesto Solitude

Sou humano.

Em minhas veias,

Solidão.

Em meu sangue,

Ansiedade que silencio.

 

Celebro porque erro.

Mais uma vez,

Fracasso.

E faço o que faço,

Não por rimas pobres,

Nem pelo ego.

Apenas me rendi ao ser marginal.

 

Não há arrependimento,

Tão só dor que adenso e velo.

Não encontro outra maneira, se não essa:

Existir, sentir, esconder

E ser humano.

 

Em 25 de novembro de 2014.